Das Cordas
Revista Áudio e Vídeo
Maria Luiza Kfouri
Junho/2004

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   Como o Brasil é grande e a música não lhe fica atrás, vamos dar um pulinho no Rio Grande do Sul.
    No segundo fim de semana de maio, a unidade Pompéia do Sesc paulistano apresentou o projeto “Suis Possíveis – Alguns Lados de um Sul”, idealizado pelo pianista e compositor Arthur de Faria e produzido por Myriam Taubkin. Foram 5 shows em duas noites, nos quais a diversidade e a excelência musical que desfilaram pelo palco evidenciaram a necessidade mais do que urgente de uma efetiva circulação destes talentos pelo Brasil afora.
   Um dos grupos que ali se apresentou, o do compositor e cantor Marcelo Delacroix, tinha entre seus integrantes um violonista, guitarrista e violeiro que me deu de presente seu primeiro CD, gravado no final do ano passado, uma produção independente. Angelo Primon é o nome dele e “Mosaico” é o título de seu disco. Em 12 músicas, todas compostas por ele, Angelo passeia pelo seu chão que, de resto, é o chão de todos nós, e vai formando, de fato, um mosaico comovente. Acompanhado por excelentes músicos, entre eles o contrabaixista Clóvis Boca Freire, que o Brasil ainda há de descobrir, Angelo Primon toca violão, violão de aço, guitarra e viola de 10 cordas. E toca muito bem. Mas é no modo como toca a viola que Angelo se diferencia de tudo o que já ouvi neste país de grandes violeiros. É um tipo de toque cujo “ataque” é o mesmo que se faz no violão mas, ao mesmo tempo, não rouba da viola sua característica principal que é, exatamente, o som de viola. E, mesmo assim, é um som diferenciado. Deu pra entender? Porque às vezes é difícil traduzir em palavras o som que se ouve. Assim, o melhor mesmo é ouvir o disco de Angelo.
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A nova geração de instrumentistas brasileiros tem sido a melhor resposta que se pode dar àqueles que vivem batendo na tecla de que há uma crise de criatividade e de que não há renovação. Muitos deles, profundamente enraizados no enorme tesouro de nossa tradição musical, têm a preciosa sabedoria de, por um lado, reverenciá-lo e, por outro, torná-lo cada vez mais vivo e brilhante a partir de suas releituras e, também, de suas novas criações .
É maravilhoso poder colocar, num mesmo artigo, lado a lado, a força e genialidade de um veterano como Hélio Delmiro e de jovens como Diego Figueiredo, Hamilton de Holanda, Angelo Primon, Ocelo Mendonça, Célio Bastos e Toninho Alves.
A única coisa a se lamentar é a falta de espaço e de apoio que todos eles, veteranos ou não, enfrentam para divulgar seu trabalho. Pois são músicos para encher de orgulho qualquer nação que se respeite.



Violão no RS - a melhor geração da história
Provavelmente o Rio Grande do Sul nunca viu uma geração tão boa de violonistas
Juarez Fonseca

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Angelo Primon também acompanha cantores, mas investiu no trabalho de violonista e compositor com o CD Mosaico, de 2004, no qual ainda mostra competência em um instrumento raro por estas bandas, a viola caipira. O violão de Toneco, Primon e Daniel Sá é eclético, MPB, jazz, folclore, flamenco (caso de Daniel).
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Tiago Flores
Regente da Orquestra de Câmara da ULBRA

Com curiosidade, coloquei o CD no aparelho e comecei a ouvir. Algo me chamou a atenção: este é um CD de música popular ou erudita?
Então aos poucos fui constatando que o trabalho de Angelo Primon é um dos melhores exemplos da mistura dos dois gêneros.
As músicas têm a força dos nossos ritmos, uma harmonia rica, porém acessível. Mostra um balanço impressionante que, apesar de ser música instrumental, dá vontade de cantar junto.
O bom gosto dos arranjos e a preocupação com o acabamento musical dão o refinamento da música erudita.
Angelo é criativo como compositor e possui muita habilidade como instrumentista. As melodias são bonitas e a instrumentação é transparente. Em Mosaico, com talento, ele interliga todas as músicas e dá unidade ao trabalho raramente ouvida em outro CD.
Certamente, este será um dos melhores trabalhos instrumentais lançados em 2004.



Arthur de Faria
Músico e Jornalista

Eu conheço o Angelo há muito tempo. Muito tempo. Não tanto tempo que o tenha conhecido na sua encarnação metaleira, mas muito tempo. Era um cara que tocava muuuuita guitarra, aquela guitarra limpa, bonita, mas com uma pegada diferente. Tocava com o meu amigo Corsetti, fazendo solos e bases espetaculares. Ó. Aí, depois, era o cara que tocava com o Falcão, com o Corsetti, com umas três mil mulheres cantantes. E não era mais o guitarrista. Era o cara que vinha falar sobre viola comigo! Um gaúcho violeiro! Ele queria ser o primeiro gaúcho violeiro de verdade. E embestou e foi. E a mesma coisa com o violão de 7, o sitar... E tudo dali há pouco o cara tava tocando muito bem. Ô rapazinho estudioso...
Nosso primeiro encontro profissional foi quando eu produzia o disco X-Quinas, do Corsetti. O Angelo foi fazer um solo e o cara era um neurótico obsessivo da frase perfeita! Chegou com uma espetacular guitarra dos anos 50, acústica e no primeiro take, fez um belo solo. Aí, pra meu desespero, segui repetindo, repetindo, raspando cabelos que só ele escutava naquele ovo-solo. Mas, vá lá. Produtor é pra deixar todo mundo feliz, o Corsetti era o dono do estúdio do mesmo... Pior que ficou bom. Quer dizer. Bom já tava no primeiro take. Ficou ótimo. Bárbaro. Aí, anos depois, trilha da Antígona, do Sófocles, direção do Luciano Alabarse. Musiquei todos os coros, o trabalho mais difícil da minha vida. Composta bande guitarra barulhenta, vibrafone, trombone e percussão, o trombonista e o percussionista tiveram de saltar fora quando os trabalhos de composição já tavam pela metade. E aí?

Caceta. Duas guitarras? Chama o Angelo.

O cara acabou tocando guitarra, e eu acabei escrevendo, porque era pra ele tocar, sitar e até viola com distorção. Tudo infeeeeeeeernalmente difícil, porque as coisas de guitarra já estavam escritas pra vibrafone e é difícil explicar isso, mas tem coisas que mecânicamente são simples de fazer com o vibra, mas quase impossíveis na guitarra. E o cara matou a pau. Um compasso em particular, eu jurei que era impossível. O cara estudou, estudou, e tocou fácil no estúdio. Botei no meu caderninho.
Primeira coisa que apareceu depois, botei o rapaiz! E tá sendo uma constante descoberta de virtuosismo, camaradagem, competência e o que os argentinos chamam de "Buena Onda". Tamos trabalhando juntos na montagem do primeiro show solo da Vanessa Langoni, uma baixinha possuída pelo demônio, e eu acho que nunca mais o Angelo vai se livrar de mim. Entrou pra gangue. Rererererere. E eu sou cada dia mais fã desse cara!